Bevilacqua, a Falcon e uma galinha de “pescoço de sola”: causos de uma história política em Juazeirinho

Quem conhece a política do interior sabe que campanha de verdade não se faz somente em palanque. Tem estrada de barro, poeira no espinhaço, porteira para abrir, café na casa do eleitor e muita conversa debaixo de alpendre. E, vez por outra, aparece até uma galinha no meio do caminho.

Foi justamente uma penosa que protagonizou um dos episódios mais pitorescos da campanha eleitoral de 2008 em Juazeirinho.

Este escriba, então candidato a vereador, acompanhava o candidato a prefeito e aniversariante do dia, Dr. Bevilacqua Matias numa peregrinação eleitoral pelos sítios Antônio Ferreira e Fuzil, no setor norte do município.

A condução da dupla era uma motocicleta Falcon, de 200 cilindradas e cor preta.

No começo do percurso, quem pilotava a máquina era este jornalista. Até que Bevilacqua pediu para assumir o guidão.

E apresentou uma credencial difícil de contestar.

Na juventude, o futuro prefeito havia sido campeão Norte-Nordeste de motocross. Portanto, experiência sobre duas rodas era coisa que não lhe faltava.

Diante de tamanho currículo motociclístico, este escriba não teve argumento.

Entreguei a Falcon ao campeão.

E foi aí que começou a tragédia.

Não para nós.

Para a galinha.

Seguíamos pela estrada quando chegamos à porteira que dava acesso à residência do agricultor Biu de Francelino. Foi exatamente nesse momento que uma galinha daquelas que o sertanejo chama de “pescoço de sola” resolveu atravessar o caminho da motocicleta.

Dr. Bevilacqua e a sua querida mãe, dona Inês

Talvez a pobre criatura desconhecesse que quem vinha no guidão era um ex-campeão Norte-Nordeste de motocross.

Não houve tempo para arrodeio.

Bevilacqua ainda tentou evitar o choque, mas a penosa escolheu a hora e o lugar errados para atravessar.

A Falcon passou por cima da bichinha.

Fim de carreira para a galinha.

A sentença foi cumprida ali mesmo, sem apelação, agravo, recurso especial ou extraordinário: morte imediata.

Bevilacqua parou a motocicleta e tratou logo de acertar as contas com seu Biu.

O agricultor não queria receber um tostão. Dizia que tinha sido apenas um acidente e que aquilo acontecia. Afinal, galinha criada solta em terreiro e estrada de sítio sempre conviveram com algum risco.

Mas Bevilacqua bateu o pé.

Fez questão de indenizar o prejuízo e pagou R$ 20 pela falecida.

Quitado o “dano material”, sem necessidade de ação judicial, perícia ou audiência de conciliação, seguimos viagem.

O ex-campeão de motocross havia vencido muitas disputas sobre duas rodas na juventude.

Naquela manhã de 2008, porém, sua adversária era uma simples galinha de “pescoço de sola”.

E, convenhamos, foi uma disputa bastante desigual.

Depois de muita estrada, conversa, aperto de mão, fotografias e pedido de voto, encerramos a peregrinação daquele dia como manda a melhor tradição da zona rural nordestina: com os pés debaixo de uma mesa.

Na casa de Zé de Francelino e de sua esposa, Maria, fomos recebidos para um almoço daqueles que dispensam qualquer luxo para se transformar num verdadeiro banquete: galinha de capoeira e bode cozido.

E aqui é indispensável fazer um esclarecimento histórico, até para preservar a reputação dos presentes.

A galinha servida no almoço não era a mesma que havia sofrido o “acidente fatal” algumas horas antes.

A de seu Biu já havia encerrado definitivamente sua participação naquela campanha.

O episódio virou causo. E causo bom no interior não morre. Passa de boca em boca, atravessa eleição, muda o calendário e termina incorporado à memória política de uma cidade.

Mas 2008 não entraria para a história de Juazeirinho apenas por causa daquela pobre galinha.

Naquele ano, Bevilacqua Matias protagonizaria uma das maiores viradas da política juazeirinhense.

Advogado, ele venceu a eleição para prefeito e colocou fim a aproximadamente 50 anos de domínio político da família Marinheiro no município.

Era o encerramento de um longo ciclo político.

Bevilacqua assumiu a Prefeitura em janeiro de 2009 e governou até dezembro de 2012. Anos depois, receberia novamente a confiança dos juazeirinhenses e retornaria ao comando do município para um segundo mandato, entre 2017 e 2020.

Foram dois períodos distintos, mas marcados por algo que merece ser registrado: Bevilacqua trabalhou para resgatar o orgulho do povo de Juazeirinho e devolver ao município o protagonismo que historicamente sempre lhe pertenceu.

Juazeirinho voltou a se enxergar grande.

E não se trata de tamanho territorial nem de quantidade de habitantes, até porque, de acordo com dados do IBGE, o município tem 17.520 moradores, espalhados por uma área territorial de 474.606 km2, uma média demográfica de 35,83 habitantes por km2. Trata-se da importância que uma cidade exerce sobre as demais, de sua presença política e de sua capacidade de se colocar como referência regional.

Durante seus governos, Juazeirinho voltou a ocupar espaço como protagonista e a se afirmar como importante polo do Cariri paraibano.

Essa ligação de Bevilacqua com a vida pública, porém, começou muito antes de ele pensar em disputar uma eleição.

É coisa de berço.

Bevilacqua é o filho mais velho do saudoso juiz federal Dr. Genival Matias e de dona Inês.

Dr. Genival foi um grande líder político e deixou seu nome definitivamente gravado na história de Juazeirinho.

Homem do Direito e da vida pública, construiu uma trajetória que atravessou gerações e cuja influência política chegaria naturalmente aos filhos.

Uma circunstância profissional do pai explica por que Bevilacqua, apesar de ter sua história profundamente ligada a Juazeirinho, nasceu no outro lado da Paraíba.

Ele veio ao mundo em 4 de setembro de 1959, no município de Conceição, no Alto Sertão paraibano, período em que Dr. Genival exercia o cargo de promotor público naquela cidade.

O menino cresceu, tornou-se advogado e, antes de chegar à política, ainda encontrou tempo para acelerar pelas pistas de motocross e se tornar campeão Norte-Nordeste da modalidade.

Décadas depois, aquelas habilidades sobre duas rodas seriam novamente requisitadas.

A galinha de seu Biu que o diga.

Nesta sexta-feira, 4 de setembro, Dr. Bevilacqua Matias chega aos 67 anos.

São mais de seis décadas de vida e uma boa parte delas entre o Direito, a política e Juazeirinho.

Quem viveu a política de 2008 sabe como as coisas eram diferentes.

Não havia WhatsApp para pedir voto, Instagram para fazer vídeo bonito nem rede social para transmitir cada passo de uma campanha. Para chegar ao eleitor da zona rural, tinha que ir até ele.

Era no sol.

Era na poeira.

Era de carro, de moto ou do jeito que desse.

Tinha que abrir porteira, atravessar riacho, sentar no tamborete, tomar café, ouvir reclamação, contar história e, sobretudo, olhar o eleitor nos olhos.

Foi assim que Bevilacqua percorreu a zona rural de Juazeirinho naquela campanha histórica de 2008.

A mesma Falcon que acidentalmente mandou para o outro mundo a desafortunada galinha de “pescoço de sola” levou o candidato por estradas e veredas atrás de um sonho que, meses depois, sairia das urnas transformado em realidade.

Bevilacqua venceu.

Quebrou um ciclo político de aproximadamente meio século.

Governou Juazeirinho duas vezes.

Acertou, errou, enfrentou adversários, conquistou amigos e escreveu seu próprio capítulo numa história política que havia começado muito antes dele, com seu pai, Dr. Genival Matias.

Política é assim.

Mandatos começam e terminam. Eleições são ganhas e perdidas. O poder passa de mão em mão.

As histórias, porém, ficam.

E agora Bevilacqua pode olhar para trás e encontrar muitas delas espalhadas pelos quatro cantos de Juazeirinho.

Algumas importantes.

Outras engraçadas.

E pelo menos uma delas custou exatos R$ 20.

Parabéns, Dr. Bevilacqua Matias!

Vida longa ao velho companheiro das estradas, veredas e pelejas políticas de Juazeirinho.

E, depois de 18 anos, este escriba finalmente deixa registrada uma conclusão que talvez devesse ter tirado ainda naquele dia:

eu não devia ter entregado o guidão da Falcon a Bevilacqua.

A Prefeitura ele conquistou meses depois.

O campeonato de motocross ele já tinha no currículo.

Mas a pobre galinha de “pescoço de sola” não teve sequer a oportunidade de pedir revanche.

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